sexta-feira, 29 de junho de 2012

JEFERSON E EU



JEFERSON E EU
                                                                                                      Wagner Barroso de oliveira

Nesse frio que faz agora no inverno de Curitiba acordar cedo é uma tarefa impossivel, e sair de casa no dia de geada dá um desanimo. Eu durmo com uns 4, 5 cobertores e ainda se não dormir de blusa, passo frio.
Neste inverno às 7 da matina, eu estava no centro da cidade com os dentes batendo, daí eu vi um pequenino ao relento. Não tinha teto, não tinha casa, ele dormia no banco da praça, tinha uma fina coberta e dormia de camisa, dormindo ou tentando dormir não sei. De longe pelo menos não o escutava reclamar. Quando do nada começava a garoar, meus olhos eram de curiosidade, miravam aquele homem no centro da cidade.
Em comparação a mim ele era completamente diferente, reparando-o percebi que se comprimia no banco da praça. Eu, movido por um sentimento de dó daquele miserável ou como digo compaixão, resolvi parar para comprar um café com leite para ele, que custou menos de 1 real. Fui em direção a ele, que estava com a coberta por cima da cabeça, o cutuquei no ombro, ele abriu uma fresta, pude reparar que era um menino devia ter uns 10 anos. Falei:

- Bom dia, te trouxe um café.

– Obrigado senhor. Ele respondeu.

- Qual o seu nome?

- Jeferson.

- Prazer Wagner! Está frio né?

-Na verdade agora está bom, frio mesmo estava na madrugada de anteontem.

Fiquei em silencio por um tempo, involuntariamente me veio na mente as minhas reclamações diárias em relação ao frio de Curitiba. Fiquei um tanto quanto admirado, pois ele não expressava tristeza em seu rosto, muito pelo contrário estava alegre com minha presença. Pensei: como ele pode estar feliz nessas condições?  Comecei a interrogá-lo a fim de obter alguma explicação.

-Você tem família?

-Eu tinha senhor, minha mãe faleceu quando eu tinha 2 anos, vivi com meu pai na rua, mas há 3 anos ele também morreu. Respondeu e se foi a sua expressão de felicidade.

- Mas tem as casas que cuidam das crianças e dão comida e abrigo.

-Tem, fui para lá duas vezes, mas consegui fugir.

-Mas por quê?

- A maioria das crianças lá, não são boas e ensinam coisas para se manter vivo, mas de uma forma nada honesta, eu tenho medo deles e é por isso que se me mandarem pra lá eu vou fugir e o senhor porque ta me perguntando isso, o senhor veio me pegar?

- Não, não fica tranquilo.

Ele continuou – Até que não é ruim viver na rua, quase sempre tem gente como o senhor que me oferece algo para comer e não sei se é porque sou uma criança, quando peço nas lanchonetes se uma me nega a outra me dá e como tem varias lanchonetes aqui no centro..

-Mas algo você não deve aceitar, pelo menos de alguma coisa você deve reclamar Jeferson.

-Eu reclamava! Disse ele. Retruquei - RECLAMAVA?

- É reclamava, mas ninguém me escutava, reclamava e não adiantava nada, sabe senhor percebi que reclamar e não dizer nada era quase a mesma coisa. Então parei. Por quê?

-Por nada, tome o seu café, já vou indo, fique com Deus.

- Eu te agradeço e que Deus te abençoe senhor.

Ele continuou só, no banco da praça, já eu segui o meu caminho, mas dessa vez deixei um pouco de lado minhas reclamações e comecei a pensar no Jeferson.


Curitiba, Julho de 2012

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